Ansias de ver
novembro 25th, 2011 § Deixe um comentário
Já faz algum tempo que fotógrafos não se contentam mais apenas com o poder de mímese, intrínseco na fotografia desde sua invenção, cada dia eles são menos “fotógrafos” no sentido clássico do termo. Guillermo Giansanti divide esta inquietação, não lhe basta apenas o domínio apurado da técnica ao trabalhar com a luz, ele não quer só escrever o mundo que aparece ao seu redor, ele quer reescrever o seu entorno, compartilhar angústias e alegrias – criar novas realidades, ou ficções pessoais.
Evgen Bavcar, artista cego que atualmente é um dos expoentes da arte contemporânea, costuma dizer que o mundo não é separado entre cegos e não cegos, “a fotografia não é exclusividade de quem pode enxergar, nós também construímos imagens interiores”, afirma ele.
O fotógrafo Guillermo Giansanti, em “Ânsias de ver”, ao perguntar para algumas pessoas cegas: “o que gostariam de ver?”, trabalha com o conceito de Bavcar, incentiva seus personagens à prática do exercício da criação, revelações de imagens interiores.
Ao contrário do caminho proposto pela artista francesa Sophie Calle que, ao perguntar para os cegos “qual é a sua imagem de beleza?”, a partir da resposta, constrói a sua própria representação através de uma imagem construída ou selecionada por ela. Guillermo leva estas pessoas aos locais escolhidos, trabalha com toda a sensorialidade do local, seus sons, cheiros, vibrações e temperaturas – constrói uma fotografia coletiva, a imagem interior do deficiente visual exteriorizada pelo fotógrafo, como uma espécie de prótese orgânica.
No entanto, Giansanti não é só fotógrafo, não é só olho neste trabalho. Ele é confidente, tradutor visual, guia que também é guiado. Onde ambos, artista e personagem, partilham o êxito e o fracasso que acompanha toda atividade artística. De certeza só trazemos a premissa de que ninguém permanece o mesmo depois de uma experiência intensa como esta.
Edu Monteiro




























